terça-feira, 28 de julho de 2009

Crescimento 'versus' Desenvolvimento*


Nas últimas décadas o paradigma de que o crescimento econômico geraria melhores condições de vida e renda para a sociedade contemporânea não se concretizou. Até mesmo os índices como o PIB (Produto Interno Bruto) e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), ao longo do tempo, demonstraram não condizer com a realidade e apresentam falhas em vários aspectos, corroborando com a premissa de que crescimento não é desenvolvimento.

Crescimento está associado às questões econômicas onde, em muitos casos, a elevação da renda ocorre somente para uma minoria enquanto a maioria acaba por se tornar mais pobre. Isso ocorre porque o lucro, quase sempre, é investido em tecnologia e inovação e, consequentemente, ocorre o descarte da mão-de-obra e eleva os níveis de desemprego.

Desenvolvimento é muito mais amplo e trata, além da melhora da renda, de amenizar as desigualdades sócio-econômicas, de acesso à saúde e educação de qualidade, de habitações condizentes, de segurança pública, de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, de cultura e lazer, de cidadania, e outros, como também de liberdade. Desenvolvimento é um processo de mudança quali-quantitativamente, é fortalecer as relações sociais, éticas e responsáveis com intuito de construir uma sociedade melhor, justa e igualitária.

Um exemplo prático decorrente disso é o crescente uso da pavimentação asfáltica com a finalidade de fazer um município "crescer". Asfaltar é investir sem retorno porque, como se sabe, além do seu custo elevado, seu real benefício é quase nulo quando verificamos os diversos problemas que ele acarreta. O asfalto é um derivado do petróleo gerado após diversos processos altamente poluidores na extração e no fracionamento; promove a impermeabilização do solo e contribui para o aumento das enchentes; gera a elevação da temperatura local por absorver o calor solar; facilita incidentes e acidentes de trânsito; não gera empregos diretos e indiretos aos munícipes; não estimula a economia local; e colabora com a evasão de divisas públicas.

Entretanto, se a intenção é promover o desenvolvimento de um município, aliado a uma visão de sustentabilidade, uma possibilidade para reverter esses problemas seria a pavimentação com o uso de bloquetes de concreto. O impacto desta forma de pavimentação seria, basicamente, o inverso se fosse realizado com asfalto, mas com retorno sócio-econômico e ambiental muito superior.

Em primeiro lugar, como há uma demanda por pavimentação para ruas, calçadas, ciclovias, estradas intermunicipais e, no nosso caso, até para a RS-422, se a pavimentação fosse realizada com bloquetes desencadearia uma oferta de empregos desde a sua produção até sua colocação, geraria empregos na extração dos bens minerais empregados, no transporte e até na construção e manutenção dos moldes metálicos. Essa mudança apoiaria toda a cadeia produtiva dos setores envolvidos.

Outro caso, se pensarmos em desenvolvimento, é referente ao altíssimo valor gasto para que o lixo seja recolhido e transportado ao seu destino. Analisando melhor este modelo podemos observar que poucos empregos são gerados, não há estimulo para a economia local, o serviço é ineficiente e deixa muito a desejar nos quesitos de limpeza, higiene e poluição de forma ampla.

Assim, se houvesse interesse público ou mesmo interesse de empresas locais, este problema poderia ser revertido em benefício de um serviço de qualidade com geração de um número superior de empregos se fossem adotadas certas medidas. Como exemplo, poderia ser previsto, na elaboração dos editais de licitação, que a coleta de lixo fosse realizada por setores, o que tornaria as áreas menores e viabilizaria a participação de empresas locais; que a coleta ocorresse simultaneamente com a exigência de pontualidade o que inibiria que empresas de outros municípios participassem; que fosse realizada a fiscalização da qualidade do serviço prestado e o controle da poluição; etc.
Estas medidas favoreceriam a participação de empresas locais, gerariam muito mais empregos e incentivariam uma nova cadeia de prestação de serviço promovendo o desenvolvimento municipal.

Sob este novo olhar, há a necessidade de empenho, planejamento e organização para que se possa alterar o sistema tradicional imposto. Também, demanda que a sociedade e os empresários locais tenham interesse nesta "fatia do bolo", bem como o interesse do cidadão em participar, discutir e opinar sobre os assuntos públicos já que, muitas vezes, não ocorrem audiências públicas e nem envolvimento político para debater certas questões.

O caminho para o desenvolvimento é árduo e sinuoso, mas se não há interesse ou se os "interesses" são outros, estaremos transferindo o bem-estar social para um futuro distante. Enquanto não tivermos um pensamento amplo, não inovarmos ou não colocarmos o "bem público" em primeiro lugar, muito do que é realizado se torna perda de tempo e de dinheiro. Decisões importantes e de impacto são necessárias e, quem sabe, com um município limpo, organizado e com um bom desenvolvimento socioeconômico as portas possam se abrir para novos investimentos e, assim, iniciar-se um novo ciclo de desenvolvimento.

Wilson Junior Weschenfelder
Biólogo
Especialista em Licenciamento Ambiental
Doutorando em Desenvolvimento Regional – Unisc
*Texto publicado no jornal Folha do Mate em 28 de julho de 2009


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Um comentário:

Fernanda disse...

olá eu e minha colega adoramos o seu blog.
estamos trabalhando com as crianças o tema sobre as matas de venancio.
será que você poderia nos enviar algumas imagens de matas ou relacionadas ao mesmo de venancio?
um abraço flávia e beatran
flaviakieling@hotmail.com
obrigada